Statement

Rogério Timóteo

O pó entranha-se, em cada inspiração, em cada poro do nosso corpo. Este pó leve, seco, paira no ar cobrindo homens, confundindo-os com a matéria-prima que exploram desde séculos. 

Arrancam blocos disformes das entranhas da terra, transportam toneladas de pedra pelas encostas íngremes das pedreiras. Desbasta-se o bloco limpando-o das impurezas, alisa-se a superfície e, conforme a sua qualidade, empilha-se em imensos estaleiros, aguardando a sua vez de servir a Sociedade. Apenas uma ínfima parte deste mármore terá a qualidade suficiente para despertar um sentimento criativo. 

É neste meio que nasço para a vida que, juntamente com a ligação familiar na exploração e transformação dos mármores, influenciará o meu futuro. 

Durante toda a infância e adolescência assimilei a sua dureza, a sua força, a sua nobreza e entendi a suas características na sua formação geológica. Visualizei as várias fases do processo de tornar um bloco disforme, duro, pesado, numa obra de arte. Aprendi com os melhores os segredos do mármore, as particularidades das técnicas, principalmente a humildade perante uma matéria-prima tão nobre. 

Ao longo destes anos, trabalhei diariamente, dedicando-me, de corpo e alma a uma escultura que pudesse, de algum modo, transmitir os meus medos, as minhas alegrias, os meus anseios, aquilo que sou enquanto ser humano. Foram horas, dias, meses, anos de árduo labor oficinal em diálogos solitários com a matéria. 

Da matéria foram criadas formas, nasceram esculturas e a pulsão das mãos ficaram vincadas na superfície do mármore. 

Rogério Timóteo