O Sagrado e o Profano
Exposição de Escultura de Rogério Timóteo no Museu Arqueológico do Carmo

 

É através da mão, que “o homem entra em contacto com o rigor do pensamento.” “O homem fez a mão (...), mas a mão fez o homem.” Henri Focillon, A Vida das Formas, seguido do Elogio da Mão, 1943. 

Com O Sagrado e o Profano Rogério Timóteo cria um novo patamar evolutivo na sua carreira artística, aventurando-se a explorar novos materiais (ferro, resina e fibra de vidro), que lhe permitiram descobrir outras tipologias de plasticidades, texturas e formas - em suma: novos vocábulos dentro da sua própria linguagem estética. 
Numa época em que continuamos a assistir à desumanização da arte, o artista elege uma vez mais como mote do seu trabalho a figura humana, explorando-a de forma intrínseca, através de linhas simples e livres, conferindo-lhe geralmente uma aura de inacabado, convidando o observador a penetrar nessas narrativas abertas.
O seu trabalho nasce da exteriorização das emoções que este escultor pretende imprimir às suas obras, perscrutando-as (e a si mesmo), absorvendo as suas essências, as suas reflexões mais íntimas, os pensamentos contidos, os monólogos, os seus diálogos solitários. É neste sentido que cada uma delas é criada como um Ser único, reservado e independente – dotado de espírito e com vida própria. Todas estas caracteristicas, cunhos muito pessoais da obra de Rogério Timóteo, encontram-se bem visíveis nas seis esculturas que compõem O Sagrado e o Profano: Tágide, Ícaro I, Ícaro II, Guardião I, Guardião II e Catedral. Quase todas elas figuras mitológicas que, através da sua expressividade corporal, representam algumas das diversas componentes do espírito humano (fundindo-se com este), como protecção, a expiação de consciência, a meditação, através dos Guardiões; a ilusão, o sonho, a utopia, a desilusão e o conceito de limitação patente nos Ícaros; inspiração, sedução, serenidade, candura, manifestadas na Tágide. Por sua vez a Catedral (remetendo para o ex-sacro local onde decorre a exposição), funciona como o elo de ligação entre todas estas representações, pois simbolizando a casa de Deus, assume-se como o símbolo de apelo à reflexão sobre todos esses conceitos - uma espécie de templo, onde podemos realizar as nossas mais intimas confissões - um ponto de encontro onde o Sagrado e o Profano se mesclam sem complexos. 
Em termos plásticos, sublinhe-se ainda a importância da paleta conscientemente escolhida para cobrir todos estes colossais corpos, recorrendo aos tons da ferrugem, da patine, do óxido, alusivos à passagem do tempo, acentuado ainda mais a sua forte carga dramática, contrastanto simultaneamente com a pureza da pedra do antigo edíficio (neo)gótico que lhe empresta o cenário. Este último vê-se assim ainda mais enriquecido, congratulando-se por poder acolher tão pujante mostra de escultura contemporânea portuguesa. 

Lisboa/Sintra

Célia Nunes Pereira

Conservadora do Museu Arqueológico do Carmo

Ano: 2012