FLOR DA PELE

 

Como a pele, com os seus meandros, as suas veias rosadas e
zonas rugosas, o mármore revela uma carnalidade fria que
transcende a inércia do mineral, procurando alcançar o
âmago do ser. Âmago à flor da pele. 

Como a pele, o mármore deve ser acariciado. As suas curvas
e a sensorialidade da sua superfície exigem a mão e o tacto.
A mão não se cansa desses volumes oclusos e plenos, das
formas renascendo a cada passagem da palma. Os corpos
lisos e quase etéreos contrastam com a rugosidade e as
fissuras de um bloco em bruto. Nus, emergem do caos
original. 

Pedra e ferro encarnam o duelo entre luz e sombra em busca
de harmonia e equilíbrio, esse duelo inicial a qualquer
criação. Nesse drama, os corpos lutam contra o peso do ferro
e de si próprios como se quisessem nascer novamente, surgir
da crisálida. Suspensos ou esmagados entre as massas negras
de ferro, aspiram a ser.

 

Constança Metello de Seixas

 

Ano: 2002