MANUELA SYNEK (*)

 

Um artista que repensa a escultura, levando consigo o desejo de um espaço 

No mês de Junho estão expostos na Galeria de Arte Galveias, em Lisboa, esculturas e desenhos de Rogério Timóteo, trabalhos recentes do artista, sob o título de «Mergulhos». Na maior parte destas obras de Timóteo, os seus corpos encontram-se na posição de quem vai mergulhar, sem pensar e sem ver. Contudo, há nelas inicialmente, a intenção de projectá-las no espaço, rasgando-o vertiginosamente, como se fosse um voo efémero. Nestas suas esculturas, nota-se que o artista prossegue um percurso com uma certa continuidade, facto que já tem vindo a desenvolver há alguns anos, nomeadamente, em algumas particularidades, - como a junção e a introdução nas suas peças abstractas e figurativas de dois materiais distintos: - o mármore e o metal, materiais inteiramente contrastantes, tanto ao nível da resistência, como da criação das diferentes luminosidades. Consegue assim, estabelecer um jogo permanente entre a tendência predominantemente figurativa, inserindo nela alguns elementos fortemente plásticos de junções abstractas com geometrizações, acentuadamente dominantes. Em qualquer destes trabalhos, desenhos e esculturas expostas, as obras estão cheias de expressividade, onde a corporização é realizada com a fragmentação dos corpos, retalhados em zonas cruciais e estratégicas.

As esculturas mostram-se escondendo ou escondem-se, mostrando...

Observa-se que o artista tenta ir mais longe, dando-nos problemáticas do homem no mundo contemporâneo. Existem, assim marcadamente, sinais de mistério, próprios do significado da arte. Na maior parte destes corpos reclinados ou invertidos, em atitude crística e cheios de luz, apressam-se para voar e sonhar, totalmente despojados, onde ressalta a delicadeza do mármore, resultante de camadas sucessivas como que em gradativas transparências. Nestes corpos de mármore, surge e aparece o mistério, criando seres enigmáticos através de um sinal constante, depositando-lhes peças em metal, escuras e opacas nas bases e nas extremidades dos corpos, cobrindo ou simplesmente tapando-lhes a cabeças e os respectivos rostos. Os desenhos de Timóteo ajudam a acompanhar este mesmo movimento e trajecto artístico. Estes desenhos estão assim relacionados directamente com a temática da escultura propriamente dita, mas com variações. Por um lado, eles funcionam como se se tratasse de estudos e de esboços para a concretização das peças escultóricas, tendo marcas estéticas distintas introduzidas que identificam o autor. No entanto, estes desenhos também funcionam como trabalhos autónomos, sendo um auxiliar plástico codificado, não deixando contudo de possuírem autênticos valores próprios, individualizados.

Nos desenhos de Timóteo, cada traço corresponde a um grito expressivo

A dualidade que o escultor encontra entre o desenho e a escultura tem grande sentido, dado que o esquema, o esboço, foram sempre um suporte, frequentemente imprescindível, no interesse dum escultor. Lembremos que o artista-escultor necessita, permanentemente, de possuir o rigor, que mentalmente, já arquitectou no traçar das formas e na obtenção dos volumes acertados. O desenho é, assim um ponto de partida e base de qualquer imagem visual e signo escrito. O desenho, é assim produzido por um acto, que o homem realiza no sentido de o transportar para qualquer espaço disponível, onde ele possa através da mão riscar ou pintar o que a sua inteligência, raciocínio, emoções e sentimentos lhe determinam. A massa volumétrica é unicamente transformada através da essência das linhas: intermitente ou contínua; fina ou levemente subtil; grossa, definindo traços sugeridos ou fixos; estáticos ou dinâmicos; linhas rectas ou ondulantes; quebradas e curvas, são finalmente as primeiras marcas do estado psicológico dum artista, dado que é onde a transposição da emoção e do sentimento para o papel vazio é mais directa, tendo à sua frente apenas as texturas do granulado do papel. Nos desenhos, cada traço corresponde a um grito expressivo, cheio de força interior e de afecto, tratando-se da busca da Verdade. É pela forma e energia como o artista executa as linhas e os traços que é definido o estilo e a originalidade do desenho. Eis a importância do primeiro registo, da tensão exercida pelo artista nalguns momentos, que são concerteza sempre irreversíveis. O desenho torna-se assim a marca do homem, registando um momento único e, nessa medida, trata-se de um momento de criação; o desenho é sobretudo essa comunicação. Se o desenho está ligado ao tempo, a escultura convoca o espaço. Esta última é o «próprio corpo», enquanto que o desenho constitui o seu imaginário, a sua memória. Cada peça de escultura, actua e vibra no espaço como se fosse um ser, respira e comunica com os seus semelhantes formais dentro duma única família. O desenho tem essa grandeza que é fazer coincidir o seu destino com a sua compleição. Ele é acima de tudo, o apontamento estético mais conseguido. A escultura e o desenho são assim, desta forma, actividades que decorrem paralelamente.

Os corpos aguardam pacientemente a viagem que lhes espera

Sabemos que normalmente as partes mais expressivas de um ser humano são exactamente a triângulação: cabeça, rosto e o olhar. É precisamente a parte mental que está oculta, aquela que se distingue, onde o uno da identidade é relevante. O escultor aqui serve-se dum figurativo, retalhando parte dos membros, concebendo a figura humana em atitude crística, com grande permanência, como que afirmando a crucificação do homem pela informática agora digital, da qual ainda se desconhece a potencialidade e o que irá permitir ao homem realizar. Nestes corpos de Timóteo talvez os rostos estejam presentes, e estão concerteza, só que o nosso olhar não os consegue atingir, porque não estão visíveis. Mostram-se invisíveis, mas, plasticamente adivinham-se. A força imagética destas peças escultóricas e dos respectivos desenhos, está precisamente em mostrar o que está escondido, quer na forma, quer no sentido. O impacto e a força escultórica residem no que está por mostrar, naquilo que está permanentemente ausente. Os volumes geométricos em metal paralelipédicos ou cúbicos escuros e sombrios nascem coincidentes no lugar dos rostos ou simplesmente são substituídos, talvez porque o ser pensante já lá não está, partiu desejoso para outra realidade, que não a alcançamos. A parte mais espiritual do homem está presente, só que ficou como que esmagada nesta realidade, onde o mundo está cada vez mais material, destruindo assim pouco a pouco a mente humana. Ou ainda, dando a mensagem de que o homem substituiu o cérebro humano pela robotização, fazendo as máquinas pensar por ele. É de salientar que estas cabeças esculpidas não estão cobertas ou tapadas suavemente. O artista não utilizou assim a continuidade do mármore para seguidamente colocar um manto nos rostos aproveitando as transparências do material. O escultor propositadamente fez aqui nos seus trabalhos, um corte profundo na escultura, procurando uma chamada de atenção invulgar. Tapou-lhes o rosto hermético e densamente fechados, definitivamente e bruscamente, sem ambiguidade, libertando o pensamento dos corpos leves, aguardando pacientemente a viagem que lhes espera, enquanto que a mente já seguiu à frente. O que é importante é que nestas esculturas, Timóteo aproveita bem como escultor de qualidade formal, o contraste e o jogo feliz entre estes dois materiais de características diferentes para criar mensagens de conteúdo de valor. Nas obras expostas, introduziu o metal, dando-lhe um significado quase que espiritual ou etéreo para impor um estilo que já o caracteriza, garantindo-lhe um caminho seguro na escultura contemporânea.
Este jovem escultor português ainda não perdeu o jeito de esculpir dos grandes mestres italianos, trabalhando o mármore com delicadeza e perícia, contudo tem a preocupação de a actualizar criativa e talentosamente.

 

Manuela Synek

Ano: 2001

 

(*): Historiadora e Crítica de Arte