A arte encontra o seu chão mais fértil na recriação da vida. A (des)construção do real que ela opera (re)constrói, concomitantemente, movimentos, ritmos, texturas, estruturas, e tonalidades de subtis significados a que se prendem, por um elo indestrutível, as emoções. Flui desta ténue cadeia entre real e imaginário, a matriz originária de uma outra realidade: a dos mundos imagéticos que povoam a interioridade do artista, se manifestam na concretude da sua obra e afectam quem o olhar sobre elas detêm.

Quando, quase, tudo se apresenta como já feito surge no a fazer do artista um novo universo mimético e simbolizante, que à ordem do mundo contrapõe a ordem/desordem do mundo interno ao sujeito – o desassossego do Eu.

É neste contexto, de permanente sublevação, do espírito que a linguagem figurativa de Timóteo se insere. O seu fazer está intrinsecamente ligado à matéria que o escultor trabalha: o mármore e, nesta última fase, o ferro e o bronze.

O rigor formal e plástico do seu esculpir, que modela directamente o mármore, opera na matéria clivagens, que são um dialéctico paradigma, de onde irrompem formas que projectam no espaço sua nudez acromática, luminosa e irradiante de sentidos diáfanos, onde pulsam emotividades que afectam, transfiguram e recriam o real.

Da pureza ascética do traço do seu cinzel nascem corpos intensionalmente fragmentados, interrompidos, mutilados ou esvaziados no seu interior. Figuras inacabadas e etéreas da physis e alegoricamente anunciam mundos numinosos que sublimam o sentir humano e remetem à pura espiritualidade.

No percurso artístico de Timóteo, é já visível o experienciar de distintas formatividades que originam diferentes fases no seu trabalho. Em todas elas a expressão plástica do escultor denuncia a originalidade de uma linguagem poética, a um tempo, telúrica e onírica, incessantemente renovada por singulares jogos - de luz/sombra, côncavo/convexo, libertação/aprisionamento das figuras - que não anulam mas subjugam a fisicidade das formas ao olhar inquieto e criador de outras formas que irrompem abruptas da matéria e se abrem a leituras.

A sua obra – dos monumentos públicos às máscaras, passando por formatividades míticas que, simbolicamente, ora anunciam a vida em gestação, ora são grito dilacerante de dor e angústia, até à sua fase mais recente, em que, através de fortes cadeias de ferro ou por meio da aspereza do mármore não trabalhado, prende ao mundo terreno seres que dele se aprestam a partir – apresenta uma simbiose única entre as formas exteriores e os conteúdos da interioridade que se abrem ao espectador em sinóptica (des) codificação individual que tem por referencia a sensibilidade


Rosália Maçã

Ano: 1998