RITMOS

 

A vida é sinónimo do ritmo, do movimento, do percurso. São as acelerações e as travagens que a caracterizam. É o prenúncio de morte que apimenta a pacatez da comodidade bafienta e lhe dá velocidade. É de tudo isto que é feita a criação e é disto que Rogério Timóteo nos dá conta.
Faz esculturas matéricas com componentes voláteis que, como convém, não se retêm na forma, soltam-se.
Não é fácil voar. Algumas peças parece que o querem fazer mas o autor não deixa. Prende-as com vigas, lastra-as com ferro, dá-lhes asas que não funcionam e ainda tenta aliviar-lhes o peso da gravidade escavando-lhes o interior. Aerodinamiza-as mutilando-as, porque a viagem não é física, é mental.
É essa espiritualidade intrínseca que mais transparece da sua obra. Transmite-nos o esforço do Homem para sair do seu corpo, para afastar barreiras, para se libertar. Asas para quê se o que vamos fazer se faz através da mente? É este paradoxo que o escultor transmite: Dá-nos asas para não levarmos o corpo. Não será esta a viagem que qualquer artista anseia?
Rogério Timóteo já partiu. Se aproveitarmos a boleia vamos entrar no turbilhão da dupla hélice em espiral da ADN, feita de ferro e de mármore, e voar com ele através dos átomos da criação. Ao ritmo da vida.

                           

Luís Vieira-Baptista

Ano: 1997