A Escultura é, no conjunto das Artes Plásticas, a Arte em que o envolvimento do Artista com a matéria é mais intenso.

Rogério Timóteo é um escultor.

O seu labor físico actua, equitativamente, como fiel servidor da sua maestria e do seu imaginário.

A constante perscrutação do corpo feminino, não pretende ser senão a busca formal de uma expressão estética, a sua. Nesse sentido o corpo, omnipresente, é forçosamente feminino. Sendo feminino, tem de seduzir. A sedução constitui factor imperativo para conduzir Timóteo à antevisão da forma, antes mesmo da sua retirada da matéria.

Miguel Ângelo utilizou a expressão “libertação da figura prisioneira do mármore”, em referência à sua obra escultórica. Em Timóteo, a técnica de retirar a forma directamente da pedra é a mesma, mas outra a filosofia. Não há influências neoplatónicas, nem a intensão é reproduzir o Homem na sua componente física e intelectual, já que os rostos das suas esculturas, quando existem, dignificam a virtualidade formal do corpo, e não constituem um espelho da alma.

Artista do século XX, Timóteo expressa o seu virtuosismo numa linguagem figurativa, mas aplica-a, única e exclusivamente, ao serviço de uma pesquisa formal. Se assim não fosse, os seus corpos respeitariam as normas de proporção anatómica e as posturas seriam sempre reais. Bem pelo contrário, o autor mede forças com a resistência da matéria, e forja a sua própria noção de belo, que é aqui tão subjectivo, quanto o são as potencialidades de modelação da matéria.

Rogério Timóteo enceta uma nova fase na sua carreira, explorando a estética das concavidades naturais da pedra. Através do cinzel reproduz formas côncavas, ordenadas, sob a modelação dos corpos, concedendo assim à leitura da obra final, uma virtualidade superior. No prosseguimento desse imaginário surgem as serpentes. Côncavas ou convexas, elas enlaçam-se, sem princípio nem fim, num infinito indeterminado, passável de todas as representações, de todas as metamorfoses. Enlaçam os corpos femininos, na sua estreita ligação com a representação das formas de vida e de dar vida. Mulher e Serpente constituem um jogo de sentidos na representação da vida e da libido. Jogo esse, que afecta o artista antes de nos seduzir a nós.

Timóteo prosseguirá, estamos certos, uma dialéctica forma que não detém limites. 

Os limites não existem na matéria.


Alice Branco

Ano: 1995