Vertigem

O acto que torna possível a realização material de uma escultura é, um pouco, como caminhar sobre um cabo; fino arame que se estende através de um precipício  capaz de absorver a criatividade à mínima insegurança ou hesitação do artista.
 

Raras são as obras que durante a sua concepção mental não são alvo de uma intensa análise crítica que culmina, muitas vezes, com a rejeição da ideia inicial ou com uma profunda modificação estética, ainda que a ideia matricial se mantenha.
 

Neste ponto a travessia vai a meio. A escolha do material que permitirá a passagem da ideia ao plano físico é uma fase por demais importante. O cabo torna-se mais fino. Descobre-se que o material tem uma essência própria que se impõe e, mesmo com uma técnica apurada por longos anos de prática, dificulta a obtenção da imagem tridimensional criada pela mente.
 

Toda a travessia decorre em equilíbrio precário. A tensão no cabo é levado aos limites pela impetuosidade do gesto criativo. Por vezes a mente e o gesto derivam em completa harmonia com a oscilação do cabo e lentamente surge um vislumbre de terra firme.
 

O desejado fim é pura ilusão, pois a sensação de vertigem irá perdurar muito para lá do termino da obra ou até nunca desaparecer.

 

Rogério Timóteo

Ano:2016