Sempre tive um apreço especial pelos escultores que esculpem. Que todos os dias utilizam o escopro, o cinzel, a maceta, as rebarbadoras, as máquinas de corte e os discos diamantados. Que trabalham com qualidade o mármore, o granito e outras pedras. O bronze, o ferro e a madeira. Que reproduzem ou inventam formas, dando-lhes vida e alma. A Escultura é uma das mais nobres modalidades artísticas, com lugar marcante desde as antigas civilizações, com relevo para a grega e a romana.
Lamentavelmente, em Portugal nunca lhe foi dispensada a atenção que merecia. Já em 1905, nos “Serões”, Ramalho Ortigão escrevia ser a obra dos escultores muito mais desatendida da crítica e da historiografia do que a obra dos pintores.
Com a subversão dos valores estéticos dos nossos dias, o endeusamento da arte conceptual, mesmo sem qualidade alguma e a apologia da anti-arte, pretendeu-se ignorar o trabalho dos escultores, que fazem Escultura, que têm o escopro e outros instrumentos como enxadas do seu trabalho e não o rato do computador ou uma pequena tesoura, para esculpir numa folha de papel.
Nos cinquenta anos que já leva de actividade, sempre o espaço da Galeria de Arte do Casino do Estoril esteve disponível para a Escultura e os escultores, através da realização de exposições individuais ou em colectivas, como aquando da realização do Prémio Edinfor de Escultura, uma iniciativa de relevo nacional em que, pelas suas quatro edições, realizadas entre 1995 e 1998, passaram 210 escultores, a maioria dos quais jovens, tendo sido atribuídos prémios no valor de 200.000 euros. Rogério Timóteo, o artista que ora realiza a sua 21ª exposição individual nesta galeria, participou em 1998 na terceira edição daquele prémio. A partir daí, foi uma presença constante nesta galeria.
Nasceu em Anços, concelho de Sintra, paredes meias com Pero Pinheiro, região onde se concentram mais de quatro centenas de pequenas empresas, que trabalham o mármore. Aprendeu escultura com Mestre Anjos Teixeira, durante quatro anos. Frequentou em 1991 o Curso de Novas Tecnologias em Mármore, em Vila Viçosa e posteriormente o curso de desenho com modelo vivo, na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa.
Nesta exposição apresenta três dezenas de peças inteiramente novas, prova de uma singular criatividade e apuro técnico da actual fase do seu trabalho. É justo ressaltar, no conjunto dos trabalhos expostos, executados em verdadeiros diálogos solitários, como chamou a esta exposição, com o mármore e o ferro, a figura alada, uma peça de grande dimensão, que traduz o despregar da matéria para os voos do espírito da realização e da transcendência, que todo o homem pretende alcançar. As crisálidas, uma série de 4 esculturas em mármore, que são como que o nascimento, o desabrochar da vida, a partir de uma matéria inerte. As cariátides, em mármore e ferro são 7 peças, que como as cariátides do Partenon Grego, suportam o universo através de uma imaginária força, que emerge da matéria; Os amantes, são uma série de três esculturas, com dois corpos – o homem e a mulher – que se abraçam e se repelem no jogo eterno do amor e do ódio. No escultor convive sempre como que um ADN de outras artes, neste caso do pintor, paisagista na feitura das chamadas paisagens do escultor, em que está presente a terceira dimensão na forma de relevos metálicos.
Rogério Timóteo encontra-se no auge da sua já brilhante carreira. Realizou, até hoje, 20 exposições individuais e participou em cerca de uma centena de colectivas, muitas das quais nesta Galeria, nos Salões de Primavera e de Outono; integrou, ainda, como artista convidado mais de duas dezenas de exposições de grupo. Está representado em importantes museus e colecções públicas e privadas. É presentemente um dos escultores mais solicitados para a execução de trabalhos de obra pública, alguns deles monumentais, diariamente vistos e apreciados por milhares de pessoas. Esta é a vantagem dos escultores que são artistas, em relação aos escultores que apenas são escultores.

 

Estoril

N. Lima de Carvalho

Ano: 2009