Onde nascem as Evas petreas de Rogério Timóteo?

 

Passando pela casa do coleccionador, à aquisição numa galeria de arte e à concepção no Atelier, a obra de arte encerra em si um percurso próprio.
De entre as acções que este trajecto aporta: fruição, aquisição e concepção, interessa-nos deter sobre uma particularidade desta última: o seu local de origem e, em concreto, o espaço do atelier.
Já em 1971, Daniel Buren (artista conceptual francês) evidenciava que “de todos os envelopes e limites que fecham e fazem a obra de arte (a moldura, o passe-partou, o plinto, o castelo, a igreja, a galeria, o museu, o poder, a História da Arte, a economia de mercado, etc), existe um do qual não se fala e que, de entre todos os que condicionam e rodeiam a arte é o primeiro: falo do ateliê do artitsta”.
Para melhor perceber as especificidades e o carisma deste espaço, a Ncontrast foi visitar o ateliêr de Rogério Timóteo, escultor português, nascido 1967 na região de Pêro Pinheiro. Tendo contacto desde cedo com o mármore, (por existir uma fábrica de transformação de pedra na sua família) e a feliz oportunidade de ser “aluno particular” do Mestre Anjos Teixeira durante cinco anos, Rogério reúne em si uma formação bastante completa. Alia o conhecimento profundo do mármore, aos ensinamentos de anatomia e ao domínio técnico da pedra. Desta conjuntura nascem obras que primam pela harmonia das formas e equilíbrio da composição, remetendo-nos para o vigor das estátuas da Antiguidade clássica e confrontando-nos com a modernidade do harmonioso contraste entre a frieza do ferro e o aspecto leitoso do mármore. As formas que espelham estas características são na sua maioria femininas. Pois para o artista as proporções da mulher são perfeitas. Resta-nos, então, entrar no local de nascimento destas evas petreas. É no atelier, situado a aproximadamente 20 m da sua casa, que Rogério cumpre o seu ritual diário de diálogo com blocos de pedra que se advinham esculturas. Actualmente com uma área de cerca de 500m2 , Rogério idealizou e desenhou o seu atelier de acordo com as suas necessidades. No exterior, montou um pequeno estaleiro, onde coloca os blocos de mármore vindos normalmente das pedreiras alentejanas ou da sua zona (Pêro Pinheiro), e onde trabalha as obras de maior envergadura. Ao entrarmos na parte coberta, encontramos uma sala de produção, onde trabalha as suas peças de dimensões mais intimistas. Pelo chão, vamos “tropeçando” em lascas de mármore, pré-esculturas, moldes em gesso, algumas encomendas pendentes e estruturas em ferro que constituem os potenciais suportes para projectar no espaço as suas formas marmóreas. Damo-nos conta, ainda, de algumas esculturas abandonadas que vão ficando a um canto, pois como explica Rogério, uma escultura é um misto de concepção e domínio técnico do seu autor e das características intrínsecas da própria pedra, que nem sempre se deixa domar. Fazer nascer uma escultura pode representar um verdadeiro desafio quando o diálogo com a pedra se torna numa discussão veemente entre os argumentos de idealização do artista e a refutação insistente das próprias qualidades do material. Uma vez concebida a obra, é colocada numa sala adjacente (um acrescento adicional relativamente ao projecto inicial), que nos dá a sensação de estarmos perante uma exposição monográfica de Rogério Timóteo. E é aqui, no atelier, que podemos observar peças como as “cariatides”, “Tempo Suspenso”, “O primeiro Homem”, “Figura de Proa” (?). E é daqui, do atelier, que elas partem para a galeria ou para um espaço público até chegar ao coleccionador ou aos olhos do espectador. E é no seu atelier que Rogério dá o sopro de vida às suas esculturas.


NContrast

Catarina da Ponte

Ano: 2008