“Nas Asas Do Espaço-Tempo”

 

As formas nascem de um espaço interior, solto e criativo, para no seu jogo com o tempo darem origem à obra erguida no espaço visível. É nessa interioridade oculta que vivem todas as potencialidades e donde emerge, numa dança complexa de dados de origem muitas vezes não identificável, a obra.

A partir de um ponto central algures no sistema de coordenadas que é o espaço desenvolve-se em todas as direcções o corpo da obra em actualizações progressivas, quantas vezes surpreendentes para o seu criador. Contrai-se e expande-se como um universo vivo, ganha alcance, tangibilidade, asas.

A mobilidade da componente tempo permite a deslocação da obra em si mesma e, em raros casos de criatividade genuína, a sua entrada na eternidade possível que, estranhamente, se apresente imóvel e inalterável.

Toda a obra desafia o efémero e busca eternizar o momento em que no espaço foi tocada pelo sopro da vida, ao ganhar a forma que outro percepciona. É a ilusória conquista de um tempo não humano, ilimitado. É o finito a querer tornar-se infinito. Na arte de Rogério Timóteo deparamo-nos com a consistente leveza de uma obra representativa do ser encarnado, agrilhoado nas malhas desta dimensão mas onde vive ainda a memória do voo libertador. Daí os movimentos de elevação ou contorção, o gesto alado que aponta para a transcendência.

Próprias do divino, as asas simbolizam talvez essa derradeira probabilidade de nos elevarmos, como os nossos companheiros pássaros, acima da ignorância e do esquecimento que estão na origem do sofrimento humano.

As asas transformam a obra, dão-lhe a apelativa dimensão do que podemos ser em voo alto.


Mariana Inverno

Ano: 2008