O anatomista perfeccionista

 

Olhar para o corpo humano e ver coisas diferentes, incessantemente. Rogério 
Timóteo encontra-lhe sempre algo de novo, descobre uma forma de o trabalhar 
que difere da que realizou antes. No fundo, como se particularidades físicas e 
metafísicas dos indivíduos tivessem trocado de posição e a personalidade fosse 
determinada pelo aspecto exterior. É por isso que, há cerca de duas décadas, não 
faz outra coisa. Apenas corpos nus. A mármore, principalmente, mas também em 
bronze.


Já experimentou outras linguagens, como os jogos abstraccionistas. Ensaios que 
estiveram longe de o deixar satisfeito. Não era ele. Prefere manter-se pelo campo 
da figuração da presença humana, por se tratar de “um constante desafio”. Nela 
descobre a todo o momento renovadas particularidades, como se de um mistério 
se se tratasse. “A partir de certa altura, com a linguagem que aprendemos, 
evoluímos e o nosso discurso autonomiza-se. É isto que quero fazer e sinto que 
ainda estou no princípio. Tudo o que fiz, até agora, foi uma preparação para o que 
criarei”, diz.


Com a mesma naturalidade que define o seu universo temático, o escultor 
assume a herança da utilização do mármore, matéria-prima extraída e tratada em 
Pêro Pinheiro, a poucos quilómetros de onde vive. O pai, como muita gente da 
zona, desempenhava essa actividade. Embora Timóteo saliente que quase toda a 
matéria-prima ali trabalhada provenha de terras alentejanas. De resto, é a sua 
preferida, aquela que lhe permite desenvolver a linguagem que toma como a sua. 
Para ele, o mármore revela-se “uma matéria ilimitada”, por transmitir calor e 
harmonia.


O criador, que começou a aprendizagem artística aos 18 anos pela mão do mestre 
Anjos Teixeira e se revê na herança deixada pela Antiguidade Clássica, acha que 
a escultura é algo fabuloso porque nos permite criar algo de novo. Veja-se a peça 
alusiva às ninfas presentes nos jardins do Palácio Nacional de Queluz. Escultura 
que representa escultura, corpos que representam corpos. Incessantemente.

Samuel Alemão 

Ano: 2007