Atrás das máscaras, o outro lado do escultor em relevos metálicos 

Observando uma, duas, várias vezes e várias peças de Rogério Timóteo o meu coração agita-se e surgem-me, à flor da pele, inúmeras emoções, como só as obras de arte com maiúscula são capazes de gerar...admiro e contemplo, e o que me entra pelos olhos dentro ferra-se-me na alma e na memória, e o que sinto, penso e imagino funde-se com a escultura, numa osmose, e de cada vez que vejo, revejo e “saboreio”, com paixão, cada nova peça, constato e comprovo que na já longa carreira do jovem escultor há uma totalidade, uma harmonia e uma energia única, própria de quem geralmente já percorreu muito caminho, sem nunca trilhar porventura mais fáceis atalhos.

Curvo-me, humildemente, perante as obras de Rogério Timóteo, que faz obra maior sem sobressaltos e vai registando o seu nome nas Artes Plásticas portuguesas em sulcos profundos e indeléveis, a conhecer, obrigatoriamente.

Entre a sensualidade e a ingenuidade, entre a paixão e a angústia, entre o temor e a esperança, entre a luxúria e o recato, entre o apelo telúrico e o salto, para o abismo ou para voos mais altos, Rogério Timóteo desafia os sentidos, sobretudo os olhares, com serenidade, com infindável ternura, candura e erotismo, em jogos de emoções ao rubro, geralmente produzidas ao longo dos muitos e profícuos diálogos solitários entre o artista tímido e as musas sedutoras, que lhe povoam a alma inovadora, inconformada e sempre à procura de um rumo diferente.

São originais as peças que nasceram para dar vida a esta exposição ; em mármore, polidas, vestidas ou semi-despidas, rasgadas na pedra, em que outras vezes mergulham, insinuantes, com traços estéticos vaidosos ou atrevidos.

Também aqui estão patentes a singeleza e a fragilidade do mundo, representadas na só aparente insustentabilidade da pedra dura, assim transformada em obra sublime, como que por magia de alquimista.

A eterna, e ao mesmo tempo sempre efémera, beleza feminina é captada e esculpida, horas a fio, em corpos sem tempo, subtis mas marcantes, com almas pulsantes, impulsivas, a espreitar, inquietas, por de trás das máscaras, quase sempre tão tranquilizadoras como o resto da obra.

Homens e mulheres sem idade mergulham, arriscam em passagens, em ritos e rituais, homens e mulheres que nascem no meio do pó da pedra, só grandiosa depois de tocada, sentida, desbastada e trabalhada por quem não se imagina a fazer outra coisa, numa vida moldada pela serenidade. 

Rogério Timóteo vive e emana paz, equilíbrio e bem-estar, e isso reflecte-se na obra que produz, de uma beleza convincente em consonância com o ser, o estar e o viver, daqueles que não sobrevivem sem a pura contemplação artística.

Em Rogério Timóteo as peças são maioritariamente fabulosas, cativam o olhar, prendem a atenção, convidam ao toque e desafiam a imaginação.

Quem o inspira? Deuses, mitos ou comuns mortais? Quanto tempo levará a dar corpo a estátuas que parecem ter vida? Olho com enlevo e admiração para as novas peças, feitas para Galveias antes de partirem para novas moradas sem fronteiras. Vem-me à ideia um misto de sensualidade e pureza, em olhares e bustos que se adivinham angelicais, ou talvez terrivelmente sedutores e carnais, e vêm-me à memória outros tempos, marcados pela angústia e pelo desespero de quem sonha ter asas, nem que fossem só para sonhar e voo então, num olhar distante, planando sobre todas as esculturas que partem do atelier para casas, praças, jardins, rotundas e galerias, descortinando-lhes traços comuns, únicos e bonitos, numa espécie de assinatura, que me faria reconhecer a obra que Rogério Timóteo faz só pelo tacto...

Agora, à solidez da pedra moldada, junta-se também, numa reveladora e promissora nova fase, a frieza do aço irrequieto e a destreza do escultor polivalente, que assim funde passado, presente e futuro, em Relevos Metálicos que são um passo à frente nesta arte secular, num toque de modernidade, destacando-se a originalidade do conceito que funde pintura e escultura, utilizando várias técnicas e diversos materiais, num perfeito e duradouro casamento, só possível através das mãos de ouro de “Mestre” Timóteo. Jovem, irreverente, singular, vertical, arrojado e despojado de tiques, de vícios ou de maneirismos, talentoso, sonhador e amante de todos os prazeres que tornam mais bonita a vida, assim é o artista grande, já incapaz de se esconder atrás da sombra de um homem simples, cuja obra, desde o primeiro instante auspiciosa, já soma cerca de 600 peças no currículo.

Para ver, admirar, tocar e desejar são as esculturas e os Relevos Metálicos de Rogério Timóteo, que já se passeiam pelo mundo, numa conquista votada ao êxito que um escultor assim merece e que Portugal tem o privilégio e o direito de conhecer, e o dever de homenagear e preservar, por tratar-se de um artista raro, maior, e de um valioso património, tão nacional como a maioria dos materiais que ele usa para criar, com sensibilidade e originalidade, peças tão universais como as suas, verdadeiros poemas em pedra talhados.


Ana Paula Almeida

Ano: 2007